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Roda de Conversa no IFRO Campus Colorado incentiva o protagonismo da mulher na ciência 

Publicado: Segunda, 26 de Outubro de 2026, 10h29 | Última atualização em Terça, 27 de Outubro de 2026, 15h15 | Acessos: 13515

Atividade foi realizada pelo coletivo estudantil “Mulheres Pensadoras e Cientistas: sujeitos invisíveis e esquecidos na história do pensamento”

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Foi realizada, no Campus Colorado do Oeste do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO), uma roda de conversa com o tema “Ciência no Feminino: estratégias contra o epistemicídio feminino na história do pensamento”. A atividade ocorreu no dia 10 de março no miniauditório do campus e contou com a participação de dezenas de estudantes da unidade, principalmente do Técnico Integrado ao Ensino Médio.

O evento teve como objetivo incentivar a prática das ciências entre as estudantes do campus a partir do relato de mulheres cientistas, destacando suas histórias, obras e trajetória acadêmica. Além dos relatos das convidadas, foi realizado um debate que teve como ponto central o epistemicídio, que consiste na tentativa de apagar, ofuscar, diminuir, quando não impedir, que o conhecimento seja praticado, divulgado e desenvolvido por mulheres. Para discutir esse tema, foram convidadas as professoras da Universidade Federal Fluminense (UFF), Natany Assai e Emanuelle Alcântara, e a professora do IFRO Campus Colorado, Viviane Silva de Oliveira Nolascio.

As professoras Natany e Emanuelle participaram remotamente e contribuíram no debate com a apresentação de seu livro, intitulado “Ciência no Feminino: subsídios históricos e práticas para o ensino de ciências”. Já a professora Viviane Nolascio apresentou sua tese de doutorado, que aborda o relacionamento abusivo e a violência contra a mulher.

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Mulheres e meninas na ciência

A atividade foi realizada pelo coletivo estudantil “Mulheres Pensadoras e Cientistas: sujeitos invisíveis e esquecidos na história do pensamento”. O grupo desenvolve ações para enfatizar o protagonismo feminino na história da ciência e da filosofia, com ênfase em grandes pesquisadoras brasileiras e estrangeiras. 

A estudante Ana Clara da Silva Lopes faz parte do coletivo e esteve envolvida na organização da roda de conversa. Em uma entrevista, ela destacou a importância de promover reflexões sobre este tema junto à comunidade acadêmica. Confira, na íntegra:

Como surgiu a ideia de realizar a roda de conversa “Ciência no Feminino” e qual foi o papel do coletivo na organização da atividade? 

Ana Clara: A ideia de realizar a roda de conversa “Ciência no Feminino” nasceu dentro do coletivo ao perceber como as contribuições das mulheres na ciência e no pensamento ainda são pouco reconhecidas ou até apagadas. Dentro de uma estrutura social marcada pelo patriarcado, muitas dessas histórias foram invisibilizadas ou, em alguns casos, apropriadas por homens ao longo do tempo. 

A partir disso, sentimos a necessidade de fazer algo que fosse além da crítica, queríamos mostrar, na prática, que essas mulheres existiram, produziram conhecimento e foram fundamentais para a ciência como a conhecemos hoje. Também queríamos questionar uma ideia que ainda é muito presente, de que ciência é “coisa de homem”, algo que acaba sendo reforçado pela ausência dessas figuras femininas nos livros didáticos e nas salas de aula.

Para construir esse momento, estudamos o livro “Ciência no Feminino: subsídios históricos e práticas para o ensino de ciências”, que foi essencial para ampliar nosso olhar, porque a obra traz diversas cientistas e suas trajetórias, ajudando-nos a entender não só suas contribuições, mas também porque elas foram historicamente apagadas.

Com isso, convidamos as autoras Natany Assaí e Emanuelle Alcantara para compartilhar conosco o processo de criação do livro e a importância de trazer essas discussões para diferentes espaços. Também convidamos a Professora Viviane Nolascio, que trouxe reflexões importantes a partir da sua pesquisa sobre violência contra a mulher e reforçou a necessidade de valorização, respeito e defesa das mulheres na sociedade.

Essa roda de conversa foi pensada como um espaço de troca, escuta e conscientização. Um momento para dar nome a essas histórias e figuras femininas importantes, reconhecer essas mulheres e, de alguma forma, contribuir para que elas não continuem sendo apagadas.

O que significa, na prática, discutir o conceito de epistemicídio feminino com estudantes do ensino médio? 

Ana Clara: O epistemicídio feminino se refere ao processo de “matar” saberes e a desvalorização e invisibilização desses saberes construídos pelas mulheres, esse processo ocorre quando um gênero (historicamente masculino) se sobrepõe ao outro e define o que é ou não considerado válido. Discutir o conceito de epistemicídio feminino com estudantes do ensino médio, na prática, significa abrir espaço para refletir sobre como o conhecimento produzido por mulheres muitas vezes é apagado ou desvalorizado. Essa proposta surgiu de uma inquietação do coletivo ao perceber que não é só a presença feminina na ciência que é invisibilizada, mas também os saberes que elas constroem.

Levar esse debate para a escola é essencial, porque é nesse momento em que muitos estudantes estão formando suas ideias sobre ciência, conhecimento e quem pode produzir saber. Quando esse tipo de discussão não acontece, esse apagamento acaba sendo visto como algo normal.

Por isso, mais do que apresentar um conceito, a intenção é provocar reflexão e incentivar os estudantes a questionarem essas estruturas. A ideia é mostrar que o conhecimento não é neutro e que existem relações de poder que influenciam o que é valorizado.

Assim, ao tornar o epistemicídio feminino visível dentro da escola, a gente contribui para formar um olhar mais crítico, mais consciente e mais atento às vozes que, historicamente, foram silenciadas.

Quais foram os principais momentos ou falas do evento que mais chamaram a atenção dos participantes? 

Ana Clara: Um dos momentos que mais chamou atenção foi a maneira como as autoras apresentaram o livro, explicando o processo de construção, os objetivos e a pesquisa por trás da obra, o que fez muita gente se conectar mais com o tema. Além disso, a apresentação da Professora Viviane Nolascio sobre violência contra a mulher também foi muito marcante, trazendo uma fala forte e cheia de reflexão, que sensibilizou bastante os participantes. 

Como você avalia a participação e o envolvimento dos estudantes durante a roda de conversa? 

Ana Clara: Eu avalio a participação dos estudantes de forma bem positiva. Eles se mostraram atentos durante as falas, respeitaram o tempo das apresentadoras e se envolveram com o que estava sendo discutido. Isso ficou claro principalmente nos momentos abertos para perguntas, em que surgiram questionamentos interessantes, que foram respondidos pelas convidadas.

De que forma atividades como essa podem contribuir para fortalecer o protagonismo feminino na ciência e na sociedade? 

Ana Clara: Atividades como esta roda de conversa contribuem para fortalecer o protagonismo feminino na ciência e na sociedade porque ajudam a dar visibilidade para o quanto as mulheres sempre fizeram parte da produção do conhecimento, mesmo quando isso foi apagado ou pouco reconhecido. 

Quando os estudantes têm contato com esse tipo de discussão, eles passam a enxergar a ciência de forma mais ampla e justa, percebendo que ela não é feita só por um grupo específico, mas por muitas pessoas diferentes ao longo da história. Isso gera reflexão e muda a forma como se entende quem pode ocupar esses espaços.

Essas iniciativas também incentivam a construção de novos conhecimentos e estimulam a participação feminina nas áreas científicas, ao evidenciar a importância, a capacidade e a grandeza dos feitos femininos ao longo da história.

O que essa experiência de organização representou para você enquanto estudante? 

Ana Clara: Essa organização coletiva, para mim como estudante e como mulher, teve um significado muito profundo. Não foi só um trabalho ou um evento, foi um momento de me reconhecer dentro de uma história que, muitas vezes, parece ter sido escrita sem nós.

Durante muito tempo, eu cresci vendo a ciência e o pensamento como espaços distantes, quase sempre ocupados e valorizados a partir de uma perspectiva masculina. E isso não é só uma percepção individual, todos nós crescemos vendo isso nas escolas, nos livros didáticos, nas obras e nos conteúdos em geral, onde a presença masculina aparece com muito mais força e visibilidade, como se fosse o padrão natural desses espaços.

Participar disso me fez refletir justamente sobre essa desigualdade histórica, que enquanto o olhar masculino sempre teve mais facilidade de acesso, valorização e reconhecimento, as mulheres precisaram, e ainda precisam, lutar para conquistar e afirmar esses mesmos espaços.

Saber que muitas dessas contribuições femininas foram pouco reconhecidas, não por falta de capacidade, mas por falta de espaço, visibilidade e valorização ao longo do tempo, traz sensações de muita revolta, pois sabemos que as mulheres sempre estiveram presentes na construção do conhecimento científico, atuando desde os primeiros momentos da história da ciência.

Para mim, ver essas histórias sendo resgatadas e valorizadas não é só inspirador, é também um ato de justiça. Me faz querer ocupar mais espaços, acreditar mais na minha voz e, principalmente, não aceitar que o conhecimento feminino continue sendo tratado como algo menor ou invisível.

O Professor João Renato Amorim Feitosa é responsável pelo coletivo estudantil no Campus Colorado do Oeste. Em entrevista, ele falou sobre o objetivo do grupo e citou destaques da atividade realizada. Confira a seguir:

Qual é a proposta do coletivo e como ele tem atuado dentro da instituição?

João Renato: A ideia de formação do coletivo parte de uma inquietação por parte dos membros em relação à minoria, ou quase ausência total, de mulheres nos manuais de filosofia e de ciência, nos livros didáticos e nos meios de divulgação científica em geral, do trabalho de grandes mulheres cientistas e pensadoras, sobretudo as brasileiras. Diante de um contexto institucional e histórico em que o incentivo ao trabalho científico e especulativo pelas mulheres é relegado a um segundo plano, o debate, levantamento histórico e divulgação acerca da biografia e produção literária e científica dessas grandes mulheres é de fundamental importância para a formação dos nossos estudantes, tanto do ponto de vista da conscientização em relação aos do gênero masculino, como de incentivo e formação das estudantes do gênero feminino. 

Por que é importante promover debates sobre epistemicídio feminino, especialmente no ambiente escolar?

João Renato: Todo tipo de ação que fomente o protagonismo feminino, o respeito à dignidade e aos direitos das mulheres e ações educativas de conscientização da importância da contribuição das mulheres para a sociedade, do ponto de vista da produção intelectual e científica, são de grande importância para a instituição, pois contribuem para uma cultura de respeito às mulheres e seu trabalho científico e intelectual de maneira geral.

Como a participação das professoras convidadas contribuiu para enriquecer o debate proposto pelo evento?

João Renato: A roda de conversa sobre o livro “Ciência no Feminino: subsídios históricos e práticas para o ensino de ciências” das professoras Natany Assai e Emanuelle Alcântara foi de fundamental importância para o coletivo, uma vez que se trata do livro texto adotado por nós para orientar a nossa pesquisa sobre a história das grandes mulheres pensadoras e cientistas. Para muitas meninas do coletivo, foi a primeira vez que tiveram contato direto com uma autora de livro. Além disso, os relatos pessoais acerca da carreira das autoras como cientistas e pesquisadoras serviram de incentivo para que as meninas possam um dia trilhar o mesmo caminho.

Na sua avaliação, qual foi o principal impacto da atividade para os estudantes que participaram?

João Renato: O principal impacto da atividade, a meu ver, se resume em dois conceitos: representatividade e inspiração. Representatividade ao proporcionar um contato direto com duas pesquisadoras com carreira científica consolidada, e inspiração ao mostrar às meninas do coletivo que qualquer uma delas pode alcançar grandes feitos científicos e acadêmicos, assim como as autoras do livro o fizeram.

Qual mensagem você gostaria de deixar para a comunidade acadêmica sobre a valorização das mulheres na ciência e na produção do conhecimento?

João Renato: Os estudos do coletivo têm mostrado que, sem a contribuição feminina, não há progresso na ciência. As mulheres são e sempre foram parte fundamental do desenvolvimento do pensamento e da ciência de maneira geral, por isso, respeitemos, divulguemos e incentivemos o trabalho de nossas mulheres e meninas.

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